Todo carnaval é
a mesma coisa: os rapazes roubam sutiãs, vestidos e as maquiagens das garotas,
se montam e saem alegres nos blocos de rua! Nesses dias eles se divertem,
bebem, abraçam os amigos e flertam com o universo feminino sem chocar a
sociedade. Vestir-se de mulher para pular carnaval faz parte da cultura
brasileira. Agora, passar o resto do ano vestido de mulher...
"Volta pra casa e vira homem, senão te
dou uma bica, sua bicha!"
Na última segunda feira o
cartunista Laerte foi ao programa Roda Viva para discutir questões relacionadas
à transgeneridade.
Após ter sido
proibido - a pedido de outra cliente, mãe de uma menina - de continuar usando o
banheiro feminino de uma pizzaria que frequentara, Laerte entrou na justiça
a fim de garantir o seu direito de utilizar o banheiro que quisesse, direito
assegurado por lei. A partir desse episódio, o cartunista tem dado entrevistas
para discutir o que ocorreu com ele.
Laerte é adepto do crossdressing desde 2004, mas somente em
2009 começou a vestir-se cotidianamente como mulher.
Crossdressing, vestir-se
ao contrário (tradução livre), significa homens ou mulheres que gostam de se
vestir com a indumentária do gênero oposto. Ou seja: homens que gostam de usar
roupas e acessórios femininos e mulheres que amam apresentar-se com roupas masculinas.
O crossdressing não está relacionado com a
orientação sexual (homo, hetero ou bissexualidade), nem com ser travesti,
transexual (identificar-se com o corpo e as características do sexo oposto e,
não, com as do próprio sexo e gênero), nem com sentir prazer sexual ao
vestir-se como alguém do outro gênero (fetiche).
Os crossdressers afirmam que adotam tal
prática por amarem a forma como o gênero oposto se apresenta e por quererem
viver a mesma experiência. Alguns chegaram a criar a nomenclatura Eonistas para se definirem de forma mais
clara. Especificando que ser eonista não
significa ser homossexual, nem transexual e muito menos promíscuo. É simplesmente uma
nova forma de apresentar-se no mundo.
Laerte trouxe à
TV e aos jornais esse universo pouco conhecido e marginalizado. Ele também está sendo porta voz de alguns
conflitos que passavam desapercebidos pela nossa sociedade.
Um dos conflitos
abordados é: existem mais de dois gêneros? Há mais de duas formas de
representação e expressão do ser humano diferentes de feminino e masculino como
conhecemos?
Outra questão
importante é o projeto de lei de autoria do vereador evangélico Carlos Apolinário, o mesmo que tentou criar o Dia do Orgulho Hétero. O vereador propõe a criação de banheiros para gays, transgêneros e transexuais. Tal projeto oficializa o
preconceito e a marginalização dessas pessoas, indo num movimento contrário às
políticas públicas de inclusão social.
Todavia, o que
mais chamou minha atenção disso tudo foram os comentários feitos por alguns
leitores da Folha de São Paulo.
"Só gera polêmica ,
porque NÃO TEM SIMANCOL . Se tivesse , 99% dos casos de homofobi@ não
existiriam. Mas por que além de g@y, além de se vestir de mulher, ainda tem
que ir no banheiro feminino???? Falta de SIMANCOL. Se eu pego um tr0ç0 destes
no mesmo banheiro que minha filha de 10 anos, quem chama a políci@ SOU EU.
RESPEITO tem que ser RECÍPROCO. Estes H0m0 idolatradores só sabem COBRAR
respeito, mas OFERECER respeito, nem pensar!! E isto porque sempre fui fã dos
quadrinhos do Laerte."
"Tudo isso não
passa de teatro, o cara quer causar polêmica...., de minha parte tudo bem,
agora se ele entrar num banheiro em que esteja minha esposa, mãe, irmãs,
sobrinhas, cunhadas, daí sim ele vai tomar um caccete (surra, que fique bem
entendido) que nunca mais vai se meter a besta, e vamos debater transgeneridade
na frente de um juiz!!!"
"Se eu o flagrar no mesmo banheiro que
minha filha, o próximo lugar que ele vai entrar será em um rabecão."
Infelizmente, os comentários acima não são os
únicos com conteúdo violento e desrespeitoso. Eles ilustram bem como
a nossa sociedade se porta diante do diferente, do que foge à norma, à média.
Provavelmente essas pessoas não chegariam ao
ponto de executarem de fato o que escrevem. Contudo, as pessoas que partem para
a ação e espancam homossexuais, travestis, pai e filho que andam abraçados ou
homens bem vestidos, certamente pensam assim.
Isso me leva a pensar até que ponto temos
realmente liberdade de expressão? Em que medida tudo o que pensamos deve ser
dito? Até quando aceitaremos "brincadeiras" e "xingamentos"
homofóbicos, racistas e preconceituosos?
Talvez realmente precisemos de leis específicas
e mais duras. Ao meu ver, até agora o bom senso e a educação não prevaleceram.
Ah! E outra coisa que me intriga muito: por que o diferente nos ameaça tanto?
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